A casa de Aurora não era grande, mas era povoada. Pelos fantasmas das conversas de ontem, pelo zumbido elétrico da geladeira e pelo eco insistente das notificações no celular.
No entanto, ao final do corredor, havia uma poltrona de veludo gasto que não pertencia ao resto do caos. Aquele era o seu canto de silêncio.
Sentar-se ali não era apenas repousar o corpo; era um exercício de escuta.
Aurora fechava os olhos e, aos poucos, o ruído da rua — o motor de um ônibus, o latido de um cão — tornava-se uma frequência distante.
No início, o silêncio era seco, quase desconfortável.
Depois, tornava-se fluido, permitindo que os pensamentos subissem à superfície como bolhas de ar.
Então vinha a escuta. Não de sons externos, mas do ritmo da própria respiração — e daquela voz interna, tantas vezes sufocada pela urgência do dia.
Sobre o colo, um caderno de capa dura.
Aurora sabia que o papel em branco é o espelho mais honesto que existe — e, por isso, o mais assustador.
Escrever exigia uma coragem que o barulho não permitia. No barulho, a gente se esconde atrás de clichês e respostas prontas. No silêncio, a verdade é a única coisa que resta.
Ela segurou a caneta. A mão tremeu por um instante.
Escrever sobre o que dói, ou sobre o que brilha lá no fundo, é um ato de desnudamento.
— O silêncio não é a ausência de som — rabiscou na primeira linha.
— É a presença de espaço para que a alma finalmente diga o que veio fazer aqui.
Quando fechou o caderno, o mundo lá fora continuava o mesmo.
Mas, dentro dela, algo havia se assentado.
Toda casa merece um canto assim: uma zona de fronteira onde o relógio para e a gente se permite, por fim, ser apenas o autor da própria história.