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Conto

O Inventário do Vazio

Paula Costa • Conto • Escrita autoral

A casa de Aurora não era grande, mas era povoada. Pelos fantasmas das conversas de ontem, pelo zumbido elétrico da geladeira e pelo eco insistente das notificações no celular.

No entanto, ao final do corredor, havia uma poltrona de veludo gasto que não pertencia ao resto do caos. Aquele era o seu canto de silêncio.

Sentar-se ali não era apenas repousar o corpo; era um exercício de escuta.

Aurora fechava os olhos e, aos poucos, o ruído da rua — o motor de um ônibus, o latido de um cão — tornava-se uma frequência distante.

No início, o silêncio era seco, quase desconfortável.

Depois, tornava-se fluido, permitindo que os pensamentos subissem à superfície como bolhas de ar.

Então vinha a escuta. Não de sons externos, mas do ritmo da própria respiração — e daquela voz interna, tantas vezes sufocada pela urgência do dia.

Sobre o colo, um caderno de capa dura.

Aurora sabia que o papel em branco é o espelho mais honesto que existe — e, por isso, o mais assustador.

Escrever exigia uma coragem que o barulho não permitia. No barulho, a gente se esconde atrás de clichês e respostas prontas. No silêncio, a verdade é a única coisa que resta.

Ela segurou a caneta. A mão tremeu por um instante.

Escrever sobre o que dói, ou sobre o que brilha lá no fundo, é um ato de desnudamento.

— O silêncio não é a ausência de som — rabiscou na primeira linha.
— É a presença de espaço para que a alma finalmente diga o que veio fazer aqui.

Quando fechou o caderno, o mundo lá fora continuava o mesmo.

Mas, dentro dela, algo havia se assentado.

Toda casa merece um canto assim: uma zona de fronteira onde o relógio para e a gente se permite, por fim, ser apenas o autor da própria história.